Neuropsicóloga aponta como a quarentena está afetando os relacionamentos e a saúde mental e emocional das famílias

Neuropsicóloga aponta como a quarentena está afetando os relacionamentos e a saúde mental e emocional das famílias

6 de abril de 2020 0 Por admin

Em um período difícil de isolamento social como medida de prevenção à proliferação do novo coronavírus, muita coisa se alterou no quesito convivência familiar, devido a permanência maior de todos em casa e das dificuldades decorrentes dos desdobramentos da pandemia do covid-19. Contudo, profissionais da saúde e especialistas do assunto têm apontado que as consequências deste isolamento pode levar a casos de adoecimento no âmbito psicológico e emocional, refletindo diretamente na dinâmica das famílias e na vida cotidiana.

A neuropsicóloga e psicanalista Dra. Leninha Wagner aponta preocupação em relação às mudanças promovidas pela quarentena, a situação de confinamento e a ameaça biológica do covid-19: “Todos nós, profissionais da saúde mental, estamos preocupados com os desdobramentos  do panorama mundial, que nos obrigou ao Isolamento Social ou mesmo Confinamento. Gerando tantas incertezas, que criam medos e ansiedade. Todo este cenário negativo, irá desencadear  de forma irreversível a  problemas na  psiquê humana. Estamos todos com atenção focada para a saúde do corpo; e com total razão. Porém já começam a aparecer um aumento substancial de adoecimento psíquico. O ser humano é por essência, paradoxal, isto é, somos um “indivíduo de relação”. Como indivíduos, somos inteiros; e indivisíveis, mas precisamos nos relacionar. Como bem disse Freud, é preciso amar para não adoecer”.

Laços afetivos e familiares podem ser abalados

A especialista ressalta que uma situação como esta pode abalar as relações familiares, embora elas sejam fortes: “Se observarmos, precisamos de dois para fazer um. Um carrega dois. Apesar do corte do cordão umbilical, os laços afetivos e emocionais nos ligam para toda a jornada da vida. Mas ainda assim; e apesar de tudo, todo excesso esconde uma falta. E no excesso do convívio familiar, nos faltarão as relações sociais, profissionais, que nos dão prazer e nos acalmam a alma. Porém, os relacionamentos, que em psicanálise chamamos “afetos”- O quanto eu te afeto,  o quanto por você sou afetado. Há sempre uma carga emocional ambivalente, isto é, amor e ódio duelando para trazer o equilíbrio à relação, seja ela familiar, afetiva ou amorosa.”

“Ninguém pode me magoar, salvo aquele à quem eu amo”.

Segundo a Dra. Leninha, a face oculta do amor pode ser a também raiva. Logo, lidar com essa emoção tão poderosa quanto negativa, em tempos de confinamento e excesso de convívio familiar pode fazer emergir conteúdos latentes que estavam mascarados entre as distrações do convívio social: “Quando somos tolhidos, dessas distrações e confrontados a médio ou longo prazo com aquilo que contemos, mas escondemos de nós mesmos, tudo isso pode se manifestar em ondas de calorosas discussões, com projeções de aspectos que são da própria pessoa. Mas ela usa da negação sobre si, para enxergar no outro, todos os pontos negativos da relação. Chegará o momento em que a “cara metade”, já não é tão cara e deixará de ser metade.”

A neuropsicóloga também ressalta a imprevisibilidade da situação em que estamos: “Fomos de forma inesperada, obrigados a nos isolar socialmente, e convivermos mais proximamente com o sistema familiar. Esposa e marido, filhos e pais, irmãos avós e etc. Algumas relações estarão diante de um caso clínico de extremos. Ou haverá uma ruptura irreversível, ou o fortalecimento da união. Conflitos e confrontos irão vir à tona, mágoas e  cobranças irão emergir. Todos os conteúdos que estavam escondidos sob as camadas das ocupações da rotina diária: Trabalho, academia, shoppings, drinques, bate papos, escola das crianças e etc. Estão contidos, naquilo que não pode mais conter tanto assim: o lar.”

Como manter a unidade familiar e emocional durante o confinamento

Para a Dra. Leninha, o segredo consiste em  juntar as peças daquilo que formava uma unidade viva e dinâmica, mas funcional: “Somente com a vontade dessa pequena comunidade a que chamamos “família”, será possível retornar a homeostase. O casal precisa buscar a sintonia perdida, para que em par, ambos sejam atendidos em suas necessidades, alcançando assim o bem estar individual e do casal. É necessário abrir o canal de comunicação – diálogo. Rever o contrato antigo a que chamamos casamento, inserindo novas cláusulas com o firme propósito de restabelecer a vida conjugal. Tudo voltará ao normal, pois tudo na vida passa e esse momento também passará. Mas é necessário equilíbrio e saúde emocional, para ultrapassar esse momento. Certamente, há a possibilidade de sairmos todos, mais maduros e fortalecidos com todo aprendizado que o momento pode nos oferecer.”